DE TUDO UM POUCO 

MLCB©2011/2021-Maria da Luz Fernandes Barata e Carlos Barata 

Portugal 

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BIRRA

Entraram naquele restaurante de beira de estrada, no Alentejo, para almoçar.
Acharam que estava escuro e que a televisão não emitia qualquer som, mas só depois de se sentarem e terem encomendado a comida, ficaram a saber o que se passava. Não havia electricidade. Não faz mal, pois o sítio onde se sentaram era bastante iluminado devido às inúmeras janelas.
Enquanto esperavam comendo azeitonas e pão com manteiga, ela reparou num velhote que ocupava uma das mesas.
Não sabe o que comeu, mas apercebeu-se que ele tinha um saquito em cima da mesa. Na altura e porque gosta de imaginar o que se passa com os outros, pensou que seriam remédios. Até poderiam ser, porque naquela idade…
Qual não é o seu espanto quando do saquito saem uma banana e duas pequenas coisas, que pareciam mini queques. Constatou pouco depois serem bombons “Ferrero Rocher”; havia também uma fatia de bolo-rei.
Tudo aquilo foi deglutido com calma e prazer. Afinal era o primeiro dia do ano.
Até que chegou outro velhote. Tinha aspecto de ser mais novo e mais atrevido. Aproximou-se da mesa, cumprimentou o comensal com alguma familiaridade, deu conta do que comeu e do que ainda restava sobre a mesa. Direccionou a sua mão para o pequeno bombom e perguntou-lhe:
- Dás-me?
- Não, respondeu o outro com ar decidido e nada satisfeito.
E aí começou uma pequena discussão que pensei só ser possível quando se é criança.
- Eu tenho Mon chéri, podíamos trocar.
- Não, disse de novo, um pouco mais alterado, enquanto vestia o sobretudo.
E lá ficaram enchendo-se de razões e do que tinham em casa, enquanto como música de fundo se ouvia uma das empregadas já saturada, dizer num tom desesperado:
- Não há café.
- Não há electricidade, não há café.
Repetidamente… 

2004