DE TUDO UM POUCO 

MLCB©2011/2021-Maria da Luz Fernandes Barata e Carlos Barata 

Portugal 

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REFÚGIO

Aquela montanha perto da minha aldeia fascina-me.
É de pequena altitude, permite a observação do casario e do vale, de forma contida, mas é de uma beleza… Vou lá muitas vezes. Ando cerca de meia hora. Sempre a subir por um carreirito que além de bastante acessível é ladeado por vegetação silvestre muito característica nesta zona.
No topo, todo o mundo é meu!
Esta montanha que ainda não está dotada de antenas, central meteorológica ou até capelinha, tem o que de mais bonito há. Uma vista maravilhosa sobre a aldeia, os campos verdejantes bem cultivados e a oeste, o mar extenso e profundo investindo contra a costa rochosa onde as gaivotas, as andorinhas e os pardalitos nidificam, convivendo em harmonia quase perfeita. É uma paisagem deslumbrante num sítio em que em contacto com o céu, o mar e a terra, é possível meditar. Pouco frequentada pelos locais, só de tempos a tempos é invadida por um ou outro grupo de turistas que explorando zonas diferentes dos grandes centros urbanos, ouvem falar e querem ver. Acontece pouco e sempre durante o verão. Assim, tenho o ano inteiro para usufruir daquele pedacinho lindo que me lava os olhos e dá tranquilidade. Ali, não há árvores ou arbustos muito altos. A vegetação é rasteira, silvestre e colorida e salta de quando em vez dos interstícios das pedras. Descobri uma pedra um pouco maior que as outras e bem lisinha.
Escolhi-a para trono. Quando me sento, posso rodar o corpo e aproveitar a visão de 360 graus. Além da vista sobre os telhados vermelhos do casario, posso contemplar o verde das culturas em tantas tonalidades diferentes, recortadas naquela mantinha imensa com a qual não nos podemos cobrir, mas que podemos admirar.
Já me esquecia. Ao longe, num dos cantinhos da manta, há um campo de girassóis que tem por fundo o mar. São grandes, bem amarelos e de olhos castanhos profundos e atentos, que seguem o sol como se de uma mãe se tratasse e lhe prestam uma homenagem merecida.
Afinal, ele é o rei dos astros. Com toda esta beleza, como poderei regressar à vida normal?! Regresso com a alma reconfortada e sabendo que amanhã, depois ou depois, voltarei.
Aquele é o meu reduto, o meu interior, a minha paz. É a minha montanha. Não interessa onde fica. No meu caso, ela está dentro de mim e quando estou carente ela recebe-me sempre de braços abertos, permitindo que eu veja para além do casario, dos campos e do mar.
Permite que eu tenha a beleza e o brilho do girassol.
Esta é a minha alma!

2007