DE TUDO UM POUCO 

MLCB©2011/2021-Maria da Luz Fernandes Barata e Carlos Barata 

Portugal 

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CRÓNICA DE UMA GAIVOTA 

 

Hoje, ao contrário de ontem, o dia está esplendoroso. 

O mar já chamou por mim, mas porque não sinto aquela vontade, não respondi ao seu apelo. 

Contudo, sozinho qual Fernão Capelo mas já com a dose de sensatez adequada a estas aventuras, parti para o meu voo matinal, deixando para trás o meu clã, que languidamente descansa à beira do mar, observando o horizonte e ao mesmo tempo a movimentação das pessoas. 

Do alto, de asas bem abertas e olhar atento contemplo o contorno da terra, o meu clã e as pessoas. 

E foi nesta observação, que deparei com eles. 

Reconhecê-los-ia em qualquer praia ou lugar do mundo. 

São pessoas, um casal que adora caminhar na praia. E não só; adora apanhar conchas. 

Fazem disso um hobby e tranquilamente vão fazendo a sua caminhada diária, enquanto eu voo, plano ou mergulho na busca de refeição. 

Para eles, sou um desconhecido. 

Sou apenas mais um do nosso clã. 

Sei que nos observam e gostam do nosso porte e ela adora fotografar-nos. 

Mas o que eles não sabem é que eu sou o tal que num dia de verão já há alguns anos num outro local, entrei atrevidamente na sua sala, para debicar uma decoração pendurada junto à janela, feita com objectos com que me deparo diariamente nas minhas deambulações pelos despojos existentes junto à orla do mar. 

Nesse dia, vi-os de perto e ouvi as suas vozes, conversando comigo e querendo uma maior aproximação, enquanto eu continuava a debicar furiosamente a tal decoração. 

Acabei por sair e lentamente bati asas. 

Regressei ao meu habitat, ao meu clã. 

Na varanda, observaram a minha partida inesperada com alguma nostalgia. 

E ternura também. 

 

25/09/2010